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22/11/2007 09:09 CONSIDERAÇÕES FINAIS/TFG - jornalismo/Unifra:
Um legado de angústias
Olhar sobre o cenário de cinema/vídeo de Santa Maria – RS
Melina Guterres
“Passageiros de eterno momento
Que não sabe onde pode parar
E essa angustia que corrói por dentro
Um dia tem que parar (...)
A única certeza é a incerteza do teu amor pra nós dois.”
Banda Fuga – anos 80
Estou ás vésperas de terminar a minha monografia (UM CENÁRIO DE CINEMA/VÍDEO DE SANTA MARIA-RS – DE 2002 A 2007), e faltam apenas alguns ajustes do quais estava analisando neste exato momento, quando então o computador seleciona a música “Saudade” composição de Rafael Ritzel, interpretação de Pylla, ambos da antiga banda Fuga, de Santa Maria que compunha suas músicas, teve auge nos anos 80.
E um trecho dela me chamou atenção: “passageiros de eterno momento”. Isso junto a história que descubro através da minha pesquisa sobre a produção de cinema em Santa Maria me arrepia. Por que a relação? Primeiro porque o cinema chegou bem possivelmente de trem na cidade, através da estação ferroviária, que tornou Santa Maria um centro um cultural. Segundo o cinema é uma arte imortal, se bem preservada. Terceiro, o trecho que diz “Que não sabe onde pode parar e essa angustia que corrói por dentro um dia tem que parar” me recorda toda a trajetória de quem lutou pelo cinema em Santa Maria. Não abordo aqui, o cinema comercial, nem trato do fechamento das salas, mas sim daqueles que aqui construíram e constroem a história da produção de cinema/vídeo local.
Tempos atrás acreditar que uma cidade do interior como Santa Maria poderia ser um pólo cultural, não tão distante, viesse a produzir o próprio longa-metragem, um Festival de Vídeo e Cinema, ou mais recentemente, tornar-se um pólo audiovisual pareceria coisa de malucos sonhadores. No entanto, a história local tem muito a ensinar e a realizar.
Ao constituir essa pesquisa vi o irmão Ademar, tentando compreender como funcionava a fotografia, talvez a sua “angustia que corrói por dentro”. Ele foi além da fotografia, foi aos projetores de cinema, e ainda não contente, ele tinha que mostrar a outros o que até então somente via. O irmão Ademar levou o cinema, projetando-o para quem jamais, se não por ele, conheceria. Este foi um homem, um passageiro de eterno momento que nunca soube onde parar. Talvez as únicas certezas que teve foi o seu amor ao cinema, as pessoas, e a incerteza dos caminhos que teria que enfrentar.
Esse passageiro, antes de partir, deixou uma mensagem quando foi homenageado num dos Festivais de Cinema e Vídeo de Santa Maria. Ele disse “Sejam úteis até o fim da vida”.... é de fato... ele nunca soube parar. Tornou-se eterno.
Outro nome dessa história é Edmundo Cardoso, dramaturgo, apaixonado por teatro e cinema, fundador do primeiro cineclube de Santa Maria. Edmundo além de contribuir para a história cultural da cidade, também foi um grande arquivista guardou documentos sobre a história de Santa Maria que hoje constituem em um acervo com seu nome “Edmundo Cardoso”. Assim como Ademar, Edmundo provavelmente nunca pensou onde poderia parar, mas sim na angustia dessa luta em prol da cultura. Deixou além de saudade, a memória que constitui muito desta e outras pesquisas, que ainda inspira e inspirarão outras tantas. Esse passageiro também já partiu desse mundo, foi o primeiro homenageado do festival, deixou seu “momento” marcado, talvez por não pensar nas incertezas, mas com certeza por não saber onde poderia chegar.
Já no início da década de 60 foi rodado o primeiro longa-metragem em Santa Maria. Uma produção de fora, da qual atores locais participaram, inclusive Edmundo Cardoso. Já a década de 70 é marcada pela chegada da bitola Super-8, onde começam, de fato, a surgir as primeiras produções locais, diretores que até hoje vivem na cidade como Grassi e Assis Brasil. Neste período, meio a ditadura, também nasce o cineclube Laterninha Aurélio, que apesar de fechar e abrir em determinadas épocas, existe até hoje.
No entanto é no final da década de 90 que são dados os primeiros passos para se consolidar o cenário audiovisual da cidade. Surge o cineclube Othelo, é criada a TV OVO, acontece o I Encontro de Cinema de Santa Maria, onde mostras das produções locais são exibidas, a Lei de Incentivo a Cultura Municipal é regulamentada, Sérgio de Assis Brasil começa a pensar em gravar o longa-metragem Manhã Transfigurada, o que, na década de seguinte veio a movimentar esse cenário.
Terceiro Milênio, século XXI, a pré-produção do longa de Assis Brasil começa a reunir pessoas interessadas em cinema na cidade, atores, técnicos, publicitários, jornalistas, estudantes, etc. A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) passa a investir mais na produção de curtas. Surgem novos diretores de produções locais como Rondon de Castro, Kitta Tonetto, Léo Roat entre outros.
Janeiro de 2002, iniciam as gravações do Manhã Transfigurada, que veio a ser o primeiro longa-metragem produzido por pessoas de Santa Maria. A imprensa local não deixa de cobrir, fazer o seu papel. Logo é criado o Curso de Extensão em Cinema Digital, com uma edição anual e produção de dois curtas (ficção) por curso. Neste mesmo ano nasce a Estação Cinema, Associação de Profissionais e Técnicos de Cinema e Vídeo de Santa Maria, onde os envolvidos nas produções locais discutiam formas de fomentar e valorizar a produção na cidade. Em agosto do mesmo ano, acontece o I Festival de Cinema e Vídeo de Santa Maria (SMVC), com competição nacional e local.
Em 2003 é criado pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA), o Curso de Comunicação com habilitações em Jornalismo e Publicidade, com duas disciplinas de cinema obrigatórias dentro da grande curricular de jornalismo e como optativas em publicidade. Neste mesmo ano, a UNIFRA também cria seu cineclube. Em 2005 o curso começa a realizar as primeiras produções de curtas e documentários, e logo, a participar do Festival de Cinema e Vídeo de Santa Maria (SMVC). Este último que começa a ter cada vez mais participações locais e visibilidade nacional.
No ano de 2007, o SMVC, na sua sexta edição, recebeu 23 inscrições de produções locais, um número relativamente bom se comparado a primeira edição que teve 6 inscrições. Na categoria nacional foram 383 em 2007, das 103 de 2002. Ainda em 2007 um outro longa-metragem com produção de fora foi gravado na cidade e incorporou atores e técnicos locais – o “Clô – Dias e Noites”, de Beto Souza. Também iniciaram as primeiras gravações de cenas do filme “Hamartia - Ventos do Destino”, de Rondon de Castro, uma produção local em parceria com a Base Área de Santa Maria.
(continua...)
Melina Guterres | Deixe sua loucura aqui (4)
22/11/2007 09:08 continuação...
Pelo que me consta historicamente na cidade sempre houve um interesse particular pela cultura e também pelo cinema. É notável que existem grupos de pessoas que ajudam a constituir esse cenário, que há interesse na produção de cinema/vídeo e que muito tem se feito por aqui.
Agora se Santa Maria é ou não hoje um pólo audiovisual, essa é uma questão que se discute e ainda deve ser discutida. Os principais argumentos que dizem que sim, levantam o número de produções realizadas pela cidade, já quem tem uma opinião contra, dizem que falta mão-de-obra qualificada, uma faculdade de cinema, etc. Talvez essa seja uma discussão eterna assim como se Santa Maria é ou não uma cidade cultura.
Se um dia em Santa Maria, se sonhou em ver cinema seja pelo projetor do irmão Ademar ou as antigas salas de cinema, noutros tempos em discuti-lo nos cineclubes e atualmente em fazê-lo, o próximo passo deve ser em profissionalizá-lo, de fato. E que as formas de incentivos não sejam unicamente por renuncias fiscais, as de aprimorar conhecimento: o curso de extensão, oficinas do festival e TV OVO, disciplinas extras em faculdades. Que venha mais! Se existe uma demanda de produções, de pessoas interessadas e/ou “na ativa”, nada mais justo que estas que aqui buscam realizar suas produções, sejam remuneradas por isto. Enquanto Santa Maria possuir esse caráter experimental, estará mais vetada a cidade laboratório do que a pólo audiovisual.
Embora Santa Maria esteja a frente de muitas outras cidades do interior, é importante pensar que estas não devem servir de parâmetro de comparação, uma vez que o que importa é fazer movimento cinema/vídeo local progredida.
Aos meus olhos, o que se passa hoje em Santa Maria é que muitos dos que constroem ou ajudam a construir o cenário de cinema/vídeo, se esqueceram que viajam no mesmo trem, se esqueceram que alguns clichês fazem sentido como “um por todos e todos por um”, uma prova disso é que a Estação Cinema esteve praticamente parada por falta de participações em suas reuniões. Esta mesma, no momento busca realizar encontros em bares, restaurantes, cafés, na expectativa de se tornar mais atraente para quem quiser participar.
Então é visto que uma discussão sobre a cena local se faz essencial, não basta apenas fazer. E se mesmo assim o cenário cinema/vídeo de Santa Maria continua a crescer, é porque na “angustia que corrói por dentro” ninguém difere.
“A única certeza é a incerteza do teu amor pra nós dois”, como diria a canção. Ainda podemos afirmar que se o cenário cinema/vídeo de Santa Maria cresce, é porque assim como Irmão Ademar, Edmundo Cardoso, Sérgio de Assis Brasil e outros nomes desta cidade (citados nessa pesquisa), que possuíram ou possuem essa “angústia” de não saber onde parar, de fato nunca pararam! Porque aqui, quem carrega essa “angústia” sonha, e tenta supri-la, fazendo. Por haver quem tê-la, em Santa Maria se constroem caminhos, inspiram “novos passageiros”, se faz história. O trem avança!
Melina Guterres | Deixe sua loucura aqui (1)
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